segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Infância e vida adulta


 Uma mão jovem olha uma foto, do passado, e enxerga a si mesma mais velha.
(fonte esconhecida)


Uma vez li um livro de Eclea Bosi, chamado "Memória de Velhos" e me chamou a atenção quando ela observou uma determinada constante em sua pesquisa.

Bosi reparou nas entrevistas com os idosos que, quando estes falavam sobre sua terra natal, seus pais, seus irmãos, quase sempre a memória evocada era a da infância. Uma época pincelada com cores coloridas, recheada de fatos pitorescos e sentimentos, embora mais simples, contudo mais sinceros em relação às outras pessoas. Não é a toa que mesmo o pai mais duro ou o irmão mais peralta, ainda é lembrado com alguma dose de carinho que se expressa no rubor da face e olhos emaranhados.

Já a vida adulta, inserida em um contexto de labor e obrigações, reservava recordações menos açucaradas em detalhes. Embora houvessem fatos diferentes como por exemplo casamentos, filhos, entre outros, era visível o preto-e-branco  nestes relatos e os lábios que teimavam em emudecer. Anos que, obstante fossem muito além do tempo da infância, mas soavam como mero complemento desta última. Um tempo onde os acontecimentos se repetem e a lembrança sobre outras pessoas soa mais cética e fria.

 A análise de Bosi pode ajudar a refletir o modo como nós institucionalizamos, ainda que inconscientemente, o espaço da infância e da vida adulta, um modelo talvez a ser questionado. Para que, quando estejamos finalmente velhos, possamos rememorar, com o mesmo vigor e brilho no olhar, a vida como um todo.

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