quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Simplesmente

SIMPLESMENTE, TE AMO...

Se tens algo ruim para falar
A respeito de alguma pessoa
Simplesmente não diga nada.

Achas que alguém
Fez algo de errado
Simplesmente pergunte e esclareça.

Caso não tenhas fé
E observes que todos são doentes
Simplesmente acredite na palavra alheia.

Poderás amar, mas se não tiveres
O retorno esperado
Simplesmente continues amando.

Acusado de ingênuo, sonhador
De esquisito, de desordenado
Simplesmente aceite, pois não se vive para procurar culpados.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Somos tão Jovens

Thiago Mendonça interpreta Renato Russo em 'Somos tão jovens' (Foto: Divulgação)

Tive oportunidade de assistir ao filme "Somos tão jovens" (2013), uma espécie de biografia do Renato Russo. Foram cerca de 470 mil espectadores na semana de estreia.

Admito que o Legião Urbana não serviu, ao menos para mim, como uma grande referência musical. Recordo que logo após a morte do Renato, em 1996, houve uma febre muito grande pelo material do grupo e, a partir daí, passei a conhecer de perto a sonoridade da banda de Brasília.

Aliás, meu contato inicial com Renato foi em sua interpretação, bastante competente, de várias composições italianas. "Strani Amori" do Renato possivelmente é tão conhecido, ao menos no Brasil, quanto a versão original da cantora Laura Pausini.

Sobre o filme ele possui seus problemas, mas o resultado final é extremamente cativante. Renato é apresentado como um sujeito sensível, todavia também detentor de uma bagagem muito grande de leitura. Aliado à sua introvertida personalidade, a eterna sensação de não-pertencimento, tornaram Renato um porta-voz quase eterno de nossas inquietudes e inseguranças. Impressionante que, sem incorrer no pecado de aderir a um romantismo fácil, Renato consegue acrescentar a dose certa de fúria e consciência política em suas músicas. Os momentos em que Renato empunha seu violão, ou guiando o vocal e o baixo do Legião, realmente são apoteóticos e valem a pena ser vistos.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Insatisfação




O sentimento de insatisfação talvez seja uma sensação que acompanha o ser humano há muito tempo. Um dia, conversando com um amigo mais próximo, pudemos observar a existência de um consenso em torno da  premissa de que "todos nós temos pouco". Ou seja, deveríamos ter mais "coisas" em nossas vidas: mais dinheiro, mais amigos, mais amores. 

Mas afinal, temos ou não temos mais do que deveríamos ter?

Analisar isto é uma questão muito subjetiva, admitimos. Talvez haja pessoas que vivam bem com apenas um salário, um ou dois amigos e apenas um amor; outros, podem ser infelizes ainda que com bastante dinheiro, muitos amigos e amores. Contudo um aspecto que analisamos é que, raramente, tentamos nos convencer de que temos o bastante. Pelo contrário, falamos demais de nossas vidas, palavras geralmente sem conteúdo, sobre como nossas existências são sofridas ou como os outros estão em melhores condições que nós.

Os elementos mais simplórios em nosso dia-a-dia, muitas vezes, são pouco levados em consideração. Cruel ou não, apenas nos resignamos quando tomamos conhecimento de alguém com alguma enfermidade séria, ou acometido por uma fatalidade.

A partir daquela data procuramos pensar duas vezes antes de reclamar, e não reclamamos mais. Tínhamos saúde, tínhamos conversas, tínhamos família. Não valia a pena mesmo ser insatisfeito.

obs: Esse texto buscou inspiração na letra "Índios", do Legião Urbana.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Perdas

fonte: Zero Hora
 
Com alguma tristeza tomei conhecimento da situação de um ex-jogador, que passou pelo Internacional e também pelo Avaí, de nome Alex Rossi. LINK

Quando eu o vi jogar, admito que já não estava ele na sua melhor forma. Contudo a classificação do Avaí para as finais do campeonato catarinense são, em grande parte, mérito deste jogador. Um time que tinha o ainda inexperiente Alex Stival (Cuca) como técnico, além dos fora-de-série Dão e Grizzo. Luis Fernando era conhecido, não sem mérito, como "pulmão avaiano", um time que começava com um goleiro, de nome Miguel, oriundo do time catarinense mais regular na época, o Tubarão (vice-campeão em 1997 e 1998). A imagem que eu guardo de Alex "Raça" ainda é da semifinal do catarinense, jogo da volta, em Criciúma, quando o time de Florianópolis de modo até mesmo surpreendente eliminou o clube local, em pleno Heriberto Hulse. As "peitadas" nas comemorações com o técnico Cuca já fazem parte do nosso folclore.

Hoje, principalmente a perda do pai, que era acima de tudo um amigo, fizeram Alex Rossi tomar o caminho das drogas, aliado à separação da esposa. Admito que vendo as fotos não o reconheci, em parte porque os anos passam (!), mas em parte talvez pelo próprio efeito do crack. Espero que ele consiga se recuperar, por aquilo que ele representou para muitos torcedores e, principalmente, porque todos nós, perdemos ou iremos perder um pai, um amigo ou uma esposa. Todos.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Agendas

 
Eu era fascinado por agendas. Agendas impressas, onde marcamos os compromissos, fazemos anotações. Tinha apenas sete anos de idade e achava muito bacana os mapas, hinos nacionais, bandeiras que acompanhavam as agendas. Esse modelo ainda era herança do momento político que o Brasil atravessou.

Provável que tenha adquirido a primeira agenda na Escola Dinâmica, onde eles forneciam obrigatoriamente aos alunos, ao menos em 1989. Era introduzida por um texto, na época longo, que falava sobre a vida escolar. Assinado provavelmente por Marshall Mcluhan, o autor finalizava declarando que o desejo da escola, acima de tudo, era de que o aluno encontrasse um amigo(a). 

Aquele texto me marcou profundamente. Era diferente do que estava acostumado a ouvir sobre a escola. E desde aquele dia pensei que aqueles anos, aqueles longos anos, poderiam de fato significar algo.
 
Acho que na escola não encontrei o tão procurado amigo(a). Amigo(a) no sentido de remeter à amizade. Amizade como confidência, desenvolvida a partir de muita confiança e fidelidade.  Status difícil de ser atingido, diferente ou superior ao mero vínculo familiar, à relação afetivo-carnal entre dois seres humanos.

Ainda assim, umas duas décadas depois, acabei encontrando esse amigo(a). Mcluhan estava certo. Ele nunca disse que seria na escola que eu o(a) encontraria. E ele me fez procurar. 

Obrigado.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

PER


Em 1995 tínhamos um professor de português, chamado Fábio Messa - sim, já digitei o nome dele no Facebook, não consegui achar, mas se alguém conseguir e por acaso ele ler esse texto, não tem problema.
Pois então, o indivíduo tinha o péssimo hábito de, a cada aula, vir com folhinhas. Isso mesmo, folhinhas de papel, falando sobre assuntos diversos, como figuras de linguagem, adjuntos adverbiais, etc.
E aquelas folhinhas davam trabalho. Como disse, era 1995. Era visível as marcas de durex, cuidadosamente colocados no original, mostrando toda a artesanalidade do processo. E elas eram recortadas por ele. E claro, não sei se o material estava na cota de "xerox' dele. 
Era um sujeito estranho. Não usava os livros, escrevia pouco no quadro. Achava que com folhinhas, fazendo rodas de discussão, conversando com o pessoal, que aquilo realmente fosse uma aula.
Um dia ele resolveu escrever no quadro. Encheu o quadro de "u´s", como na imagem acima, e disse que era para aprendermos leitura semiótica. Que se tivéssemos olhos atentos, veríamos uma mensagem de fundo religioso, extremamente conhecida. Ninguém entendeu nada. Aquilo não era aula.
Quinze anos depois, me vi distribuindo as mesmas folhinhas, procurando as mesmas discussões. E nesse dia talvez, finalmente, tenha conseguido entender. Era a aula do Fábio que necessitava de uma leitura semiótica. E talvez poucos de nós tenhamos, na época, realmente entendido e compreendido isso.

* a leitura semiótica da imagem é "PER feito só de u´s" ou seja: PERFEITO SÓ DEUS

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Ritz







A primeira vez que fui em um cinema (ou a segunda, não recordo ao certo) foi ali no saudoso Cine Ritz. Fui com o meu tio para ver o que qualquer criança, naquela idade, queria descobrir: se um homem poderia mesmo voar.

Eu tinha apenas cinco anos, contudo já sabia ler. Herança da cartilha Caminho Suave. Ainda assim não consegui acompanhar as "rápidas" legendas. Que pecado, um filme para crianças e legendado. 

A sessão não estava cheia e não lembro de gritos histéricos ou algo do tipo. Havia um "q" de político na película, típico daquela época, que talvez tornasse a coisa menos empolgante: o pano de fundo era, para variar, a iminência de um apocalipse nuclear.

Era um tempo em que eu achava que a minha mãe era a mais linda das mulheres; que meu pai tinha todas as respostas do mundo para as minhas perguntas; e que meu tio, por mais ridículo que possa parecer, que de algum modo ele era o Superman.

Hoje aprendi a observar outras moças, ainda bem que diferentes da minha mãe; encontrei no google um valioso suporte para as respostas que meu pai não tem ou que eu possa não concordar.

O que não mudou é que meu tio, de fato, era um Super-Homem.

E ele me mostrou que um homem pode mesmo voar.









quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Ciranda de Pedra



Um dos livros que mais marcaram minha adolescência foi, sem dúvida, Ciranda de Pedra, da aclamada Lygia Fagundes Telles. Acho que Virgínia deve ser uma das minhas personagens favoritas.

Resenhas sobre esse livro deve existir aos montes por aí, inclusive a Rede Globo produziu uma novela homônima, que admito não conhecer.

A obra me marcou a partir da complexidade de sentimentos e, ao mesmo tempo, simplicidade da personagem. Ela ama um pai que "meio" que lhe abandonou; vive com uma mãe com sérios problemas de saúde e com um padrasto que, embora um homem bom, mas não é seu pai. Convive com Luciana, a qual Virgínia crê que nutre sentimentos pelo padrasto. Com auto-estima muito baixa, se achando feia e sem-graça,Virgínia se conforma com as irmãs, que vivem com o pai. Uma destas irmãs, Otávia, é de beleza sem igual. E ainda Virgínia nutre paixão por um dos amigos das irmãs, Conrado, cujo físico parece inclinar muito mais para Otávia do que para a sem-graça Virgínia.

Virgínia poderia ser estereotipada como a típica adolescente, mas para mim é muito mais que isso. Lygia Fagundes Telles consegue, com extrema simplicidade, expressar em Virgínia aquilo que muitas vezes não admitimos: que amamos, sentimos ciúmes, somos carentes e temos a eterna sensação de não-pertencimento. É uma obra de certo modo triste, que inquieta, mas termina a meu ver de modo positivo.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

O Soviete Supremo



Em fins da década de 80 eu começara minha jornada no mundo dos quadrinhos. Uma boa recordação era o caráter bastante político das histórias. Havia um super-herói famoso, chamado Nuclear, que deu um ultimato a todas as nações do mundo para que se desfizessem de seu arsenal atômico. Claro, esse herói chegou a ser perseguido por outros, tal como o Batman, que acreditava estar cumprindo a lei e fazendo a coisa certa.

Um super-herói soviético, conhecido como "Soviete Supremo", também me chamou a atenção. Na verdade ela não é era bem um super-herói, mas sim um dos integrantes de um grupo de homens com armaduras poderosíssimas cuja finalidade era suprir a falta de super-heróis na União Soviética. Pois por mais absurdo que pudesse parecer, todos os super-heróis pareciam ser dos Estados Unidos (por que será? rsrsrs).
Ou seja, a Guerra Fria (disputa entre dois países ideologicamente antagônicos, EUA x URSS) influenciava muito o imaginário popular e, claro, dos quadrinhos. Sobre a Guerra Fria, o historiador Eric Hobsbawm. no já clássico "A Era dos Extremos", considera que o mundo tem uma dívida enorme com as posições de Reagan e especialmente Gorbachev. Este conseguiu convencer tanto os americanos quanto as outras nações do Ocidente de que as intenções de encerrar a Guerra Fria, por parte da URSS, estas eram sinceras.

O sinistro absurdo da corrida nuclear finalmente chegava ao fim (final dos anos 80), embora as décadas de 70 e 80 tenham padecido de uma explosão de febre militar e retórica apocalíptica talvez jamais vistas.

Infância e vida adulta


 Uma mão jovem olha uma foto, do passado, e enxerga a si mesma mais velha.
(fonte esconhecida)


Uma vez li um livro de Eclea Bosi, chamado "Memória de Velhos" e me chamou a atenção quando ela observou uma determinada constante em sua pesquisa.

Bosi reparou nas entrevistas com os idosos que, quando estes falavam sobre sua terra natal, seus pais, seus irmãos, quase sempre a memória evocada era a da infância. Uma época pincelada com cores coloridas, recheada de fatos pitorescos e sentimentos, embora mais simples, contudo mais sinceros em relação às outras pessoas. Não é a toa que mesmo o pai mais duro ou o irmão mais peralta, ainda é lembrado com alguma dose de carinho que se expressa no rubor da face e olhos emaranhados.

Já a vida adulta, inserida em um contexto de labor e obrigações, reservava recordações menos açucaradas em detalhes. Embora houvessem fatos diferentes como por exemplo casamentos, filhos, entre outros, era visível o preto-e-branco  nestes relatos e os lábios que teimavam em emudecer. Anos que, obstante fossem muito além do tempo da infância, mas soavam como mero complemento desta última. Um tempo onde os acontecimentos se repetem e a lembrança sobre outras pessoas soa mais cética e fria.

 A análise de Bosi pode ajudar a refletir o modo como nós institucionalizamos, ainda que inconscientemente, o espaço da infância e da vida adulta, um modelo talvez a ser questionado. Para que, quando estejamos finalmente velhos, possamos rememorar, com o mesmo vigor e brilho no olhar, a vida como um todo.