Sempre morei em Florianópolis. Contudo alguns anos de minha vida passei em Salvador e outros, em Niterói. Quando menor, cerca de 5 anos de idade, meus pais me deram um dinheirinho (talvez fossem cruzeiros, talvez cruzados) para ir se divertir em algum brinquedo no shopping Iguatemi.
Fui na seção de brinquedos. Assim que coloquei a mão no bolso, surgiu uma criança. Uma criança negra, da minha idade. Tinha os dentes brancos, brancos como muitas vezes somente os negros conseguem, naturalmente, ter. Sorrindo, ainda que sem disfarçar o peso sobre os ombros, pediu algum trocado.
Imediatamente eu dei alguma nota. Como eu era novo ainda não tinha, talvez, o constrangimento que adultos possuem neste tipo de situação. Mas aí apareceu outra criança. E outra. E as notas, elas iam acabando.
Meu pai me puxou e me alertou que, se eu desse esmola, sempre apareceria alguém, até que eu não tivesse mais nada. Eu olhei ao meu redor. Salvador era diferente do que eu estava acostumado em Florianópolis. Eu me perguntava por que lá haviam tantos negros, por que a maioria deles eram pobres e por que, ainda assim, a maioria sorria, revelando dentes e gengivas negras, lindos dentes e gengivas negras.
Ou seja, na minha concepção, se eles eram "diferentes", eram pobres, nem sorrir eles tinham direito e eu, claro, nada poderia fazer por isso. Não foi culpa do meu pai e, acho, não foi culpa minha. Mas hoje ainda não damos esmola. Ainda estranhamos a pobreza alheia. E ainda achamos que não podemos fazer nada.
* Esse texto foi baseado a partir da fala de uma amiga minha, colega de trabalho. Mais especificamente, quando ela mencionou "olhar para os menos favorecidos com empatia". Agradeço-a pela inspiração.
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