Certa vez a Velha Senhora me levou, para fazer companhia, no lugar onde descansavam já há algumas décadas o patriarca de nossa casa.
Deve ter ido, bastante provável, visitar meu bisavô. Renovar as flores, rearranjar os adornos, os vasos, os enfeites.
Após nos dirigimos à uma sala escura, onde muitos outros residiam. Abriu ela uma gaveta, empoeirada, onde morariam para todo o sempre àquelas que lhe antecederam.
Suas mãos, à época ainda fortes, buscavam talvez algum pedaço de carne, ou qualquer coisa palpável, que por um segundo qualquer a fizesse revisitar um momento do passado, decerto de sua genitora.
Pude reparar em seu semblante um desconforto, reforçado pela penumbra.
Seus dedos carregavam uma meia-calça, de nylon, que resistia incólume à passagem do tempo.
A Velha Senhora se virou para mim e comentou, laconicamente: "Uma meia-calça resiste em contraposição àquilo que apenas nossa memória faz questão de preservar".
Não sabia o que dizer, e como saberia? Algo maior nos esperava, era o que diziam.
A partir daquele momento, os dias ganharam pinceladas mais frias.
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